Pastor José Satírio dos Santos

Escrito por  Ceifeiros Web Set 21, 2018

Pastor José Satírio dos Santos concedeu entrevista ao Ceifeiros em Chamas durante a 72ª Escola Bíblica de Obreiros do Ministério do Belém.

Ele falou sobre os trabalhos desenvolvidos pelo Centro Cristiano, que se tornou uma confederação de igrejas que leva o Evangelho para a América Latina e Ásia. Pastor Satírio é missionário há 44 na Colômbia e um profundo conhecedor de missões, escritor e conferencista internacional.

A obra missionária iniciada em Cúcuta na Colômbia está para completar 44anos. O que está consolidado e o que ainda precisa ser feito?

Nossa igreja fez 44 anos, já alcançou a maturidade. Ela desenvolve trabalhos não só dentro da cidade, mas no estado e no país, transformando-se numa plataforma missionária que cobre países vizinhos e que também cobre o sul do nosso continente, ao centro e América do Norte. Ela saltou para a Ásia em 1996, ocupando o espaço do Himalaia tendo como ponto de partida o Butão.

Cúcuta faz fronteira com a Venezuela. O senhor tem igrejas na Venezuela? E quanto aos refugiados venezuelanos que chegam à Colômbia, tem feito algum trabalho específico?

Nós temos uma igreja na Venezuela que já se tornou mãe de outras 80 igrejas, ela está na capital de San Cristóbal e se estendeu pelo país em diferentes cidades e estados da Venezuela. Hoje nós somos uma federação de igrejas chamada Centro Cristiano. Estamos na Venezuela há 20 anos.

Quanto aos refugiados, estamos fazendo o trabalho que é próprio atendendo aos domésticos da fé, aos crentes que saem da Venezuela, que tem familiares na Colômbia, Equador, Peru, eles saem esperando o retorno para suas casas. Dado a precariedade financeira que estão vivendo, vários deles chegam na cidade buscando amparo e ajuda na igreja e fazemos o que está ao nosso alcance para atende-los e encaminha-los aos seus destinos. Outros querem ficar na cidade em busca de trabalho então nós oferecemos uma orientação para que regularizem sua documentação e assim ascender ao campo de trabalho para ganhar o seu pão. Outro grupo importante são os que ficam ali de forma temporária por semanas ou meses e logo querem retornar para a Venezuela ou seguir um caminho em busca de outras oportunidades. Nosso trabalho é permanente, dia e noite; é um trabalho caro porque são muitas pessoas e muitas necessidades; estamos falando de alimento, transporte, saúde, estamos falando de atenção às crianças, combatendo a desnutrição; estamos falando do cuidado com a mulher, as mães, enfim, existe uma complexidade nisso, e a igreja criou uma estrutura para responder. Graças a Deus que dado a essa iniciativa algumas ONGs cristãs estão vindo à fronteira e se unido à igreja para facilitar o trabalho profissional e com certos recursos para poder ajudar a diminuir o impacto da fome.

Satirio Ceifeiros

Pastor José Satírio dos Santos na redação do Ceifeiros em Chamas

Cúcuta está entre as cidades mais populosas da Colômbia, de acordo com estimativa do DANE (2011), tem cerca de 700 mil habitantes. Quais as principais dificuldades apresentadas nessa região do país?

São muitas devido ao fato de que a fronteira foi fechada há 3 anos e meio. Nesse período em que a fronteira foi fechada causou um trauma, porque muitas pessoas, tanto venezuelanos, quanto colombianos trabalhavam em cidades vizinhas de ambos os países. São trabalhadores e que estudantes cruzavam a fronteira diariamente... com o fechamento da fronteira muitas pessoas perderam seus empregos, perderam suas empresas, e produziu um vazio econômico na cidade. Para você ter uma ideia, o movimento financeiro do comércio da fronteira era de 6 bilhões de dólares, hoje é de 300 milhões.

O senhor mencionou o fechamento da fronteira, como os venezuelanos conseguem entrar na Colômbia?

A fronteira está fechada para o transporte aéreo e terrestre, não há conexões entre um país e o outro. As pessoas chegam lá a pé. As autoridades fizeram um acordo de respeitar o direito do cidadão de sair e entrar e isso ocorre, mas a pé. Depois que cruzam a fronteira, os refugiados até encontram algum meio de transporte, que são poucos. A maioria viaja em caminhões, o que aqui no Brasil chamamos de pau-de-arara.

A Colômbia é um país majoritariamente católico (80% a 90%). Desse total gigantesco, qual é o percentual de nominais e praticantes? Tem alguma similaridade com o Brasil?

Tem, mas em proporções menores no sentido do compromisso, pelo fato de que o Evangelho na Colômbia é mais recente que no Brasil. Explico, na Colômbia, assim como no Brasil, as primeiras igrejas evangélicas chegaram há cerca de cem anos, a diferença é que demorou cerca de 40 anos para ser tornar visível. Hoje, as igrejas evangélicas que estão presentes e tem força, são aquelas que têm 50 anos de vida, e que passaram por perseguições dentre outras situações e as venceu. Hoje a igreja é vista pela população, pelo governo como um corpo, um corpo que produz que responde, que e ajuda na transformação social da nação, na literatura, na educação, no trabalho e etc. Porém o governo da Colômbia fez um estudo que mostra que onde a igreja está instalada, esse estudo apresenta um número de 30 ou 35% dependendo da região. Inclusive eles dizem que nós somos uma massa crítica no meio da sociedade colombiana.

A perseguição religiosa na Colômbia é um fato, segundo o status da organização Portas Abertas. As FARC, guerrilha esquerdista, estão realmente se extinguindo?

Quando falamos de perseguição precisamos focalizar na religiosa, porque o país é de tradição católica, com acordo entre o estado e a igreja até 1991 quando nasceu a nova constituição. Então, a igreja certamente sofreu muito pelo radicalismo religioso que exercia a igreja católica, porém isso pouco a pouco tem diminuído e sentimos que hoje trabalhamos em parceria com igrejas que não são evangélicas como a católica e outros grupos, com respeito. Quanto ao tema das guerrilhas, elas não veem a igreja como inimiga por causa da sua fé. As guerrilhas se opõe a igreja de acordo com quem as representa, por exemplo, se um pastor ou missionário atacam elas com criticas, condenando-as, isso é motivo de retaliação, então elas contra atacam. Outra situação que levou algumas igrejas a serem perseguidas foi porque as guerrilhas faziam recrutamento de jovens e adolescentes e os membros da igreja não permitiam que seus filhos fossem recrutados, pois tinha conhecimento bíblico, e não aceitaram esse tipo de proposta e isso causou perseguição, massacre e mortes violentas de membros e líderes de igrejas.

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Pastor José Welington e Pr. Satírio, amigos dentro e fora do ministério (Foto: Tiago Bertulino)

No fim do ano de 2016 uma tragédia acordou o Brasil: a queda do avião do time da Chapecoense, deixando 71 mortos. O Brasil se surpreendeu com a ternura e amor ao próximo demonstrado pelo povo Colombiano. O povo colombiano tem sem seu DNA essas características?

O povo colombiano é de uma expressão genuína de amor pelo seu próximo, mesmo em meio a violência que sempre viveu por conta da guerrilha e do tráfico; o colombiano em geral demonstra muito amor ao seu próximo, mostra muito amor e compaixão e são solidários com aqueles que sofrem.

Pastor, explique-nos o que é o Projeto Filipe?

É um que tem o compromisso de ganhar, edificar e enviar; é como se fosse um ventilador com hastes que está rodando o tempo todo, produzindo esse movimento. O projeto Filipe permite que a igreja cresça de forma ordenada, nós entendemos que quem salva é o Senhor, é o Espírito Santo que convence o mundo do pecado e traz as pessoas ao arrependimento e a transformação, mas nós também entendemos que é a igreja quem faz o discipulado, então nesse campo a igreja procurou fazer um discipulado responsável, sistemático, que significa que para fazer uma evangelização consciente foi preciso fazer uma pesquisa na cidade, onde pudemos conhecer o pensamento religioso dos vizinhos da igreja em diferentes bairros, porém como um espiral, partindo do bairro da nossa igreja para algumas quadras em redor sempre em espiral. Na primeira roda, alcançamos 6 mil pessoas dos quais 1300 aceitaram jesus como salvador e isso nos permitiu fazer um trabalho de discipulado bastante profundo e com resultado extraordinário. Estou me referindo aos anos 1980. E de lá aos dias de hoje não paramos. Fizemos o primeiro ciclo de trabalho até o ano 2000 chamando grupos de oração, onde as casas das pessoas convertidas se transformaram em casas de oração para orar pela família e por seus vizinhos. A estratégia era acompanhar as pessoas e ganhar almas, porém o ponto central era orar pela salvação e necessidades que aquela família tinha. Isso durou uns 20 anos. No 20º ano percebemos que seria necessário fazermos uma renovação, e nessa renovação fomos induzidos a ver a figura de Filipe como aquele que dá prioridade pelo Espírito Santo de atender a um homem chamado Eunuco, um tesoureiro que vinha da África, e quando se aproxima do carro que o Espírito mandou, ele perguntou ao senhor que estava no carro se ele entendia o que estava lendo, no que ele responde “como entender se não há quem explique”. Então aqui nós vemos Filipe como um evangelizador que atende pessoa por pessoa e o valor maior é a palavra. Então nós fizemos uma transição de grupos de oração para grupos bíblicos. Isso foi no ano 2000 e estamos chegando aos 18 anos nessa segunda fase, o que significa que estamos trabalhando nas casas por 38 anos.

Então podemos dizer que esta é uma das receitas que tem feito a igreja na Colômbia crescer?

Sim, e crescimento equilibrado. Como a cidade é composta por muitos transeuntes, então grande parte das pessoas que são alcançadas pelo evangelho estão de passagem e logo você as evangeliza, discípula e até batiza, mas quando procuram por elas, não as encontram. Porque vieram para morar na cidade temporariamente e logo seguem para outro lugar. Então fizemos uma pesquisa e focalizamos a quem evangelizar, dando prioridade ao cidadão que reside na cidade sem deixar de evangelizar os outros é claro, porém o nosso maior enfoque está em quem reside, isso permitiu que a igreja mudasse a sua estrutura quanto à evasão de membros.

Além da Colômbia, onde mais o Centro Cristiano tem levado o Evangelho?

Estamos atendendo a América Latina de diferentes maneiras, as vezes vamos com projetos missionários a alguns países como no caso da Venezuela, Equador, Peru, já atendemos também ao pedido de socorro das igrejas pequenas como no Chile, Bolívia, lá embaixo na Argentina, no Uruguai, Paraguai e damos atenção subindo também para a América Central e até mesmo nos EUA, e daí nós estamos atendendo também, como já mencionei na Ásia, que é o trabalho missionário do Himalaia.

O Butão é o nosso país modelo de evangelização no Himalaia tudo por causa da leitura de um jornal que informava: Butão, Reino do Dragão a terra onde Deus não é conhecido. A partir daí ele se tornou referência e avançou pelas fronteiras do Tibete, pelas fronteiras do norte da Índia, Nepal onde já existe um grupo importante de igrejas que nasceram.

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Missionário Satírio foi um dos ensinadores da 72ª Escola Bíblica de Obreiros (Foto: Tiago Bertulino)

O senhor escreveu o livro Missão em Cúcuta, que virou referência na área de Missiologia no Brasil. Existem outros projetos literários previstos para o Brasil?

Eu tenho outros projetos literários sim, mas são projetos que estão atrelados a igreja, ao Centro Cristiano, são trabalhos feitos para atender as necessidades da própria igreja local, mas além do Missão em Cúcuta, tenho o livro Fé, Visão e Destino Profético, também publicado pela Casa Publicadora das Assembleias de Deus. Tem outros projetos para sair, mas na minha maneira de pensar um livro deve ser publicado quando ele alcança certo objetivo no qual ele possa provar. Literatura sem prova fala muito pouco. Eu creio que um livro necessita de uma voz e a voz de um livro é a realização daquele que o escreve.

O que o senhor diria para alguém que sente seu coração arder por um país ou um povo e não sabe por onde começar a obedecer ao chamado divino?

Toda pessoa que tem um chamado e está consciente dele não deve permitir confusão. E o que faz com que as pessoas entrem em confusão? Falta de enfoque, ou seja, ouvir várias vozes ao mesmo tempo. Considerar as coisas dentro de uma perspectiva humana e pensando assim, tudo se torna impossível. O que se deve fazer é focar no Deus que deu a visão, que deu a chamada e logo por em ação. Hoje, uma das pregações que fiz foi Força em Movimento. Eu creio que as pessoas estão cheias de força, porém força que não usa; em alguns casos forças físicas que nunca usou. Por exemplo: há pessoas que não sabem o quanto podem levantar de peso; outras, não sabem quantos quilômetros podem suportar correndo; há pessoas que não sabem o quanto podem saltar; não sabem quanto tempo suportam ficar sem respirar; não sabem o quanto podem ouvir, ver, falar e outras não sabem o quanto podem pensar, ou coordenar seus pensamentos. O que estou dizendo é que precisa trazer tudo isso para que seja posto em movimento.

Quando Deus chamou a Abraão, qual foi a grandeza de Abraão? Crer, obedecer e sair. Se ele não saísse, não aconteceria nada, porque somente os que caminham, chegam. Então o primeiro passo é vamos fazer, vamos por a força em movimento. Precisamos vencer a barreira do medo, o medo não se vence assim; é preciso fazer um inventário do medo. Como ele surge? Através de quem? Aonde? Por quê? Então eu posso resisti-lo sem desconectar-me da minha fonte, que é Deus. Se eu estou conectado eu posso todas as coisas naquele que me fortalece. Então eu vou vencer o medo, não sou escravo dele, eu sou filho de Deus, o meu passo é ir da defensiva para a ofensiva. Ir a busca do meu objetivo, minha meta, realizar o meu trabalho em Deus ou aquilo que Ele quer que eu faça. Se a pessoa não se atreve a isso, vai passar o resto da vida, morre e com ele vai sepultado os sonhos, os anelos que teve no seu coração, mas que nunca pode realiza-los porque nunca se atreveu a dar um passo.

Última modificação em Segunda, 08 Outubro 2018 12:44

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